- Blog, Contos Eróticos
- abril 23, 2026
Conto Hétero
Parte 1
As gotas começaram a cair aos poucos. Na mesma medida, as raras pessoas que caminhavam pelo bairro abriram seus guarda-chuvas. Rapidamente, virou um temporal. Berenice era a única sem ter como se proteger, havia esquecido em casa mesmo sabendo da possibilidade de precipitação. Andava avoada desde o término do seu casamento há dois meses e ainda não tinha se recuperado totalmente. Então, abaixou a cabeça, cruzou os braços com seu sobretudo e acelerou o passo em vão. A chuva aumentava junto com seu caminhar e ainda tinha muitos minutos para andar até chegar em casa. Virou a direita e entrou na primeira loja aberta que viu. Uma loja pouco iluminada e vazia, tão silenciosa que abafava a chuva que caía lá fora.
Berenice ergueu e balançou a cabeça, seus cabelos curtos sacudiram arremessando gotículas pela loja. Respirou fundo e soltou o ar forte com a boca. Duas, três vezes.
Ao seu redor, muitas coisas metálicas empoeiradas, cadeiras de veludo, casacos de veludo, relógios de madeira, pratos de porcelana. Mas ela só notou depois de checar rapidamente o celular e ver que não havia nenhuma mensagem importante, apenas de trabalho.
Caminhou devagar olhando ao redor a confusão de itens empilhados e os ricos detalhes que quase não existiam mais na moda minimalista dos tempos atuais.
Sentou-se numa cadeira e pegou novamente o celular. Primeiro, viu a previsão do tempo que apontava que a chuva duraria mais algumas horas. Depois, abriu as redes sociais. Viu alguns stories antes de visitar páginas de memes. Deixou sua bolsa no chão, seu corpo se acomodou na larga cadeira e relaxou rindo de vídeos em alto volume. Quase tão alto que ela por pouco não ouviu os passos de Olivier pela escada de madeira. Por sorte, os degraus rangiam demais. Berenice acertou a postura e viu a chegada do dono da loja. Ela julgou que ele tivesse quase 30 anos, tinha um cabelo que oscilava entre desleixado e moderno. Ele se apresentou e perguntou se ela precisava de ajuda.
Berenice logo respondeu que havia entrado ali por causa da chuva, mas que já estava de saída. Olivier espiou a porta.
– Acho que a chuva não vai parar tão cedo. Mas pode ficar à vontade. Quer uma água ou um chá? – ofereceu.
– Aceito um chá.
Ele subiu novamente as escadas e logo retornou com uma garrafa de água quente e uma caneca com chá.
– Fique à vontade para ver a loja. Temos muitas coisas bonitas e úteis por aqui – incorporou o vendedor enquanto se afastava e andava pela loja.
Berenice tomou um pequeno gole para se certificar de que o chá não estava muito quente e depois outro.
– Eu nunca tinha visto essa loja. Estão aqui há muito tempo? – ela perguntou.
– Há quase 20 anos, acho.
– Hmm – soltou tímida enquanto passeava com o olhar pela loja.
Olivier se empolgou.
– Aqui, tudo tem uma história por trás. Algumas são verdade, outras nem tanto. Esses aqui, por exemplo – disse um conjunto de talheres -, foram deixados para trás pelas tropas alemães durante a invasão da segunda guerra.
E assim foi entretendo e contando histórias para Berenice. Algumas, de fato, pareciam mais reais que as outras.
– E aquele ali? Está a venda? Qual é a história? – perguntou Berenice apontando para um espelho vertical que estava apoiado numa parede.
– Esse aí é um dos mais antigos – começou Olivier.
Mas o ranger lento da madeira da escada o interrompeu. Ele foi até lá e estendeu a mão.
– Quer ajuda, pai?
– Não, obrigado. Quem está aí? – respondeu Gerard com uma voz pesada.
– Berenice, ela parou aqui por causa da chuva e estou contando algumas histórias para ela.
Ela levantou-se para cumprimentá-lo e esperou seu caminhar lento acompanhado de uma bengala que parecia tão antiga quanto todo o resto.
– Não precisa se levantar, muito prazer, Berenice. Gerard.
– Então, ela acabou de perguntar sobre aquele espelho. O senhor quer contar ou quer que eu conte? – perguntou Olivier ao pai.
– Eu posso contar – e emendou numa tosse apontando para a garrafa d’água para que o filho o servisse.
Olivier logo atendeu e ele começou a história.
– Esse espelho é bem antigo. E sem poupar palavras, era de um prostíbulo que tinha aqui próximo a essa rua. Eu e Juliette, minha falecida esposa e mãe do Olivier, trabalhamos lá por quase 30 anos. Eu trabalhava no bar, Juliette era garçonete e às vezes ajudava no serviço de quarto. Esse cabaré ficou aberto por quase 100 anos. Muitos soldados das guerras frequentaram, artistas, jogadores e políticos também. Tinha gente de tudo que é tipo. Vivia cheio. A Chloe era nossa chefe, havia herdado da mãe o lugar. Mas ela não teve filhos. E quando foi ficando velha, resolveu fechar. Nos ofereceu tudo que tinha lá e nós aproveitamos muitas coisas. A nossa cama, inclusive, era a cama do melhor quarto do local. Mas também copos, talheres, lençóis e até cadeiras e sofás.
Olivier dava risadinhas e piscava para Berenice quando o pai interrompia a história para tossir ou para pensar. Ela escondia um sorriso tímido que nem precisava disfarçar.
– E esse espelho era usado na área reservada para as funcionárias, se é que me entende quem eram as funcionárias de lá. De acordo com Chloe, elas deveriam se olhar nele por 10 segundos antes de irem ao bar ou ao pole dance para se sentirem mais bonitas e confiantes e fazerem os clientes beberem e consumirem mais. Elas diziam que funcionavam, pois nunca deixavam de seguir o ritual. Eu me olho hoje em dia e me vejo feio. Talvez meu problema seja maior e eu deva ficar 10 minutos, não segundos – seu comentário arrancou uma risada dela.
– Pode experimentar, me diga o que acha – ofereceu Gerard.
Berenice recusou. Mas a insistência de Gerard e Olivier a fez ceder. Parou de frente ao espelho e se olhou. Primeiro, observou suas bordas bonitas e bem trabalhadas. E automaticamente mexeu o cabelo e se ajeitou, fez uma pose. Parecia que se via pela primeira vez em muito tempo. Sentiu-se abraçada ou bem recebida pelo olhar do espelho.
– E quanto custa esse espelho?
– Quanto você quiser pagar. Algumas coisas não têm preço – respondeu Gerard impedindo que Olivier respondesse.
– Eu não tenho ideia de quanto custaria um espelho desse. Ele é tão bonito e delicado, mas também imponente – disse passando a mão pelos seus detalhes. Ela então entrou na internet e pesquisou preços de espelhos – 200 euros é um bom preço? – perguntou.
– É sim – concordou Gerard.
– Então eu vou levar.
– Acho que você não vai conseguir carregar isso sozinha. Eu mando entregar na sua casa, me diga seu endereço – brincou Gerard puxando um bloco e uma caneta que estavam na sua camisa – Tudo bem. Amanhã eu entrego lá então. Aliás, eu também não consigo. Olivier entregará – terminou piscando para o filho.
Gerard seguiu contando histórias dos itens e muitas do prostíbulo que trabalhou. A chuva foi diminuindo. E então Berenice resolveu partir. Despediu-se dos dois e, como já era tarde, decidiu por pegar um táxi.
Logo cedo na manhã do dia seguinte, ouviu batidas na porta. Era Olivier na porta com o espelho. Berenice estendeu os braços para recebê-lo e indicar para que entrasse. Surgiu calmamente depois Gerard.
Berenice mostrou-se surpresa, mas sorriu com a presença do pai.
– Preciso me certificar de que cuidará bem e colocará num bom lugar – brincou.
Ela sugeriu que deixasse o espelho na sala e que depois colocaria no quarto.
– Nada disso, vamos colocar direto no quarto.
E então Berenice os guiou para o quarto. Colocaram numa quina. E o espelho pareceu ainda maior no seu quarto pequeno.
Ela ofereceu uma água, um chá e um café a eles. Gerard recusou. Olivier aceitou. Na cozinha, os dois se olharam em silêncio. Sem assunto. Olivier tentou beber a água com pressa para terminar aquela situação um pouco constrangedora sem motivo. Mas sua garganta travou.
– Então você tem um guarda-chuva – disse ao notar o objeto pendurado na parede.
– É, ontem eu esqueci. Fica tranquilo. Não vou mais precisar me abrigar na sua loja – respondeu Berenice.
– Você foi uma ótima cliente. Talvez eu torça para você esquecê-lo mais vezes.
As palavras pareceram ainda mais um flerte quando saíram da boca de Olivier, que emendou num grande gole para terminar o copo e sair antes que Berenice pudesse responder.
Despediram-se os três, e pai e filho foram embora.
Berenice tomou um gole de café, pegou a bolsa no quarto e foi para o trabalho.
À noite, quando voltou, tomou um susto com seu reflexo no quarto. Havia esquecido da sua nova aquisição. Ela foi até o espelho e novamente sentiu seus detalhes. O ajeitou levemente e viu uma gaveta que havia atrás dele, algo parecido com um baú. Quando abriu, viu diversas folhas antigas escritas.
Começou a ler as primeiras páginas. Eram relatos de Chloe na época do cabaré.
Chloe imaginava o sexo dos seus clientes com suas funcionárias, conseguia muitas vezes ouvi-los transar e os observava nas áreas comuns, bares, pole dance e ao sair do quarto. Descrevia o que imaginava e como se excitava e como havia gozado pensando em tudo aquilo.
Berenice tentou imaginar como era o ambiente. Mas logo um vazio preencheu seu corpo. Sua vida sexual estava parada desde seu término. Ou até mais, pois o casamento já não vinha nada bem. Subitamente então guardou as memórias de Chloe e foi se deitar.
Ligou algo no pc, mas seus olhos eram frequentemente atraídos pelo seu escuro reflexo no espelho. Aos poucos, foi se sentindo exausta com os sentimentos que surgiram e apagou.
No dia seguinte, acordou mais leve. Olhou-se no espelho antes de ir ao trabalho e se achou mais bonita. Gostou da roupa que tinha escolhido, realçava seu rosto e um pouco seu peito. Depois de uns segundos se olhando, decidiu passar um batom. Agora sentiu-se perfeita. Virou-se de lado, ergueu um dos pés e partiu. No caminho, parou numa loja e comprou alguns produtos de beleza. Cremes, perfumes e maquiagem. Estava tão empolgada que também comprou lingeries novas e chegou 20 minutos atrasada. Mas tudo bem. Sentia-se um pouco mais leve.
Berenice não via a hora de chegar em casa e ler as cartas de Chloe. Viu-se pensando nisso várias vezes.
Apesar de ter chegado atrasada, saiu no horário em ponto com um andar acelerado.
Chegou em casa, puxou o espelho e pegou as cartas. Antes de ler, tomou um banho e pegou um vinho.
Sentou-se de pernas cruzadas na cama e começou.
Chloe narrava o encontro de um músico italiano com a funcionária que tinha o oral mais bem falado do estabelecimento. Seus textos poupavam o leitor de descrições físicas dos personagens. E ela era obrigada a imaginar tudo. Quando a moça limpou os lábios sujos de bebida do italiano, Berenice mordeu e limpou a própria boca. Viu-se no reflexo do espelho e se achou bonita.
Parou a leitura e resolveu vestir uma das lingeries que havia comprado. Preta, básica. Mas com rendas sensuais e delicadas pelo corpo. Voltou a ler sentada. Chloe descreveu o flerte entre o italiano e a moça como doce e eterno, o que fez Berenice passar um dos seus perfumes favoritos.
O casal saiu da vista de Chloe quando fecharam a porta. E a partir dali a dona do estabelecimento pôde apenas ouvir e imaginar. Já Berenice pôde apenas fantasiar. Olhou-se no espelho e se achou sensual. Deu um grande gole na taça de vinho para terminá-la, levantou-se e desfilou em direção ao espelho. Fez sua mão se encontrar com ela mesma pelo vidro. E foi no armário revirar tudo. Abriu caixas, tirou roupas. Até que depois de uma ansiosa procura achou o seu vibrador Deluxe. Não usava há tempos. Estava sem bateria. Colocou rapidamente para carregar. Enquanto isso, foi à cozinha e pegou mais uma taça de vinho.
Seguiu lendo. Chloe se mostrava muito excitada, principalmente porque era obrigada a imaginar tudo. O casal fazia pouco barulho no quarto, exceto por uns gemidos tímidos e abafados da moça. Poucas vezes ouvia a cama mexer. Mas podia imaginar os amantes e a troca de toques delicados pelos corpos.
Sem perceber, Berenice também se tocava. Seu peito estava de fora sendo acariciado pela ponta dos seus dedos. Seu mamilo estava duro e recebeu um apertãozinho. Tirou o sutiã novo. E olhou-se pelo espelho. Parou alguns segundos e admirou os próprios seios antes de agarrá-los com as mãos em formato de concha. Suas pernas e buceta ficaram com ciúmes dos peitos livres e sentiam calor ainda cobertas pela lingerie nova. Berenice pousou a taça de lado, ficou de pé e virou-se de costas para o espelho para tirar a peça exibindo a bunda. Performava para aquela pessoa misteriosa que se descobria atrás do espelho.
Quando voltou a ler, Chloe descreveu o caminhar de toalha da moça até o bar para mais um drink. Ao retornar para o quarto, piscou para a chefe.
Berenice tocou sua buceta e a sentiu quente, melada, molhada. Parecia pulsar. Sua respiração acelerou. Olhou para o lado e viu o Deluxe. Tirou da tomada. Ele ligou. Primeiro ela o passou pelo rosto, lambeu um pouco da sua ponta enquanto massageava o seu clitóris. E então penetrou-se com ele. Se encarava através do seu reflexo, mas quando sentiu o vai-e-vem dentro de si, fechou os olhos. Deixou o corpo escorrer pela cama e abriu ainda mais as pernas. Ficou escancarada para o seu brinquedo.
Quando abriu os olhos e se olhou, viu Olivier na sua mente. O vendedor se fazia presente no quarto. Berenice apertou seus peitos e deixou escapar palavras para ninguém.
– Ai, Olivier, isso. Vai – saíram involuntariamente da sua boca.
Ela aumentou a vibração do seu corpo com a potência do Deluxe.
– Por favor, me faz gozar – gemeu delicadamente.
Berenice ajeitou-se na cama, ficou de joelhos de frente para o espelho e começou a rebolar. Passou a mão pelo próprio corpo sentindo cada detalhe esquecido. Rebolou e gemeu com cada vez mais intensidade. O Deluxe a penetrava e vibrava no seu clitóris. Ela gozou então com gemidos ofegantes. Berenice precisava de força para soltar os sons, mas era impossível prendê-los para si.
Caiu de costas na cama se olhando pelo espelho, passou os dedos mansamente pelo próprio corpo sorrindo. E depois rindo. Pegou a carta de Chloe para terminar de lê-la com o corpo ainda quente.
Quando terminou, quis ler outras. Mas preferiu deixar para os próximos dias.