- Blog, Contos Eróticos
- setembro 10, 2026
Conto lésbico
A Carol chegou com uma garrafa de vinho tinto e a cara de quem tinha chorado no uber. Nem precisou falar nada, eu já sabia. Abri a porta, peguei a garrafa da mão dela e fui direto pra cozinha buscar as taças. Faz quatro anos que somos amigas. Algumas pessoas a gente aprende a ler sem legenda.
O término com o Felipe tinha sido na semana anterior. Nós já sabíamos que isso ia acontecer, mas términos nunca são legais. Ela tinha passado os últimos dias no piloto automático, trabalhando feito louca, respondendo tudo bem nos stories pra não ter que explicar nada pra ninguém. Eu era a primeira pessoa que ela estava vendo de verdade desde então.
Abrimos o vinho, fomos pro quarto, porque meu quarto tem uma energia de lugar seguro que a sala não tem, deitamos na cama com as taças e ficamos assim por um tempo, ela falando, eu ouvindo, sem pressa de resolver nada. Nossa amizade é do tipo que não tenta consertar, só acompanha.
Em algum momento o vinho acabou e nenhuma das duas foi buscar mais. A luz da luminária era baixa, a Carol estava de lado me olhando enquanto falava, e eu percebi que já tinha um tempo que ela não falava do Felipe, ela estava só me olhando. Não disse nada. Ela também não.
“Você é a pessoa mais importante da minha vida”, ela falou de repente. Não foi romântico, foi só verdade, coisas que saem sem querer quando a gente baixa a guarda.
“Eu sei”, eu disse. “Você também é.”
Mais silêncio. Mas diferente do anterior.
Não sei qual das duas se moveu primeiro, acho que foi um movimento simultâneo do tipo que acontece quando duas pessoas decidem a mesma coisa ao mesmo tempo sem combinar. O beijo foi estranho por uns dois segundos, aquele estranhamento de “isso é você”, e depois simplesmente deixou de ser.
A Carol tem boca macia e beija com calma, com as duas mãos no meu rosto, e há algo completamente diferente em ser segurada assim. Virei para ela, os corpos se encaixaram com a familiaridade de quem já dormiu na mesma cama várias vezes, mas com uma eletricidade que era inédita.
“Nunca fiz isso”, eu disse, encostando a testa na dela.
“Eu sei.” Uma pausa. “Eu também não.” Outra pausa. “Mas eu quero.”
Não precisou de mais nada.
Ela me deitou e ficou em cima de mim, me olhando com a atenção que eu já conhecia, mas que agora tinha um peso diferente. Tirou minha blusa devagar, passou a mão pela minha barriga com uma leveza que me deixou com a pele toda arrepiada, e abaixou a cabeça pro meu pescoço, cheirando fundo, coisa que ela sempre faz quando está confortável com alguém. Só que agora tinha mais, muito mais, e a pressão da boca dela na curva do meu pescoço me fez fechar os olhos.
Desceu pelos meus peitos com a língua, alternando lambidinhas com sugadinhas leves no mamilo, enquanto uma mão passeava pela minha barriga, pelo quadril, só explorando. Eu passava a mão no cabelo dela, que estava solto, e tentava me lembrar de respirar.
“Você tá bem?”, ela perguntou, levantando a cabeça.
“Tô ótima”, eu disse. “Não para.”
Ela deu uma risada e voltou.
Foi descendo pela barriga, mordiscou o osso do quadril de um jeito que me deixou louca, e chegou na minha coxa com beijos que tinham pressão suficiente pra deixar marca. Quando a boca dela finalmente chegou na minha buceta, foi com uma língua que não tinha pressa nenhuma. Lambeu devagar, inteira, dos grandes lábios até o clitóris, várias vezes, sem focar em nenhum lugar específico. Eu segurei o lençol. O quadril se mexia sozinho, pedindo mais, e ela segurou meu quadril com as duas mãos e manteve o ritmo dela, completamente no controle. Chegou no clitóris e ficou lá, com a pontinha da língua, fazendo movimentos circulares bem lentos, e eu gemi de um jeito que nem sei descrever.
“Carol.” Só o nome, sem completar. Ela entendeu.
Aumentou a pressão, o ritmo, e quando eu já estava quase, ela parou, subiu, me beijou, e eu provei meu gosto na boca dela.
“Mesinha”, eu disse, sem fôlego.
Ela abriu a gaveta sem perguntar o que eu queria. Viu o Delight lilás, pegou, me olhou. “Esse?”
“Esse.”
A Carol encaixou com cuidado, a haste interna entrando devagar enquanto ela me olhava pra garantir que tava tudo bem, e posicionou o bocal no clitóris. Aí pegou o controle sem fio e ficou com ele na mão, me olhando.
Ligou na primeira intensidade.
A vibração interna e a sucção chegaram ao mesmo tempo, e meu corpo inteiro deu um espasmo involuntário que me fez rir de surpresa. A Carol também riu, mas não tirou os olhos de mim. Ficou me observando com atenção clínica para entender cada reação, e foi aumentando devagar, uma intensidade de cada vez, sem pressa, pausando quando eu prendia a respiração pra ver o que meu rosto fazia.
Não tem nada mais íntimo do que isso. Ser vista assim por alguém que te conhece de verdade.
Na quinta intensidade eu já não tinha compostura nenhuma. Pedi mais, sem vergonha, e ela deu. Meu orgasmo veio com força, longo, daqueles que tomam o corpo inteiro, e eu fiquei com os olhos fechados um tempo depois que acabou, ainda sentindo o pulso nas pontas dos dedos.
Quando abri os olhos, ela estava deitada do meu lado, cabeça apoiada na mão, me olhando com um sorriso safado. Não era o sorriso de sempre. Era um novo.
“Oi”, ela disse.
“Oi”, eu respondi.
A gente ficou rindo sem motivo por uns trinta segundos, de um jeito idiota e gostoso de quando algo muito bom e muito inesperado acontece ao mesmo tempo.
Depois foi a vez dela. E eu descobri que conhecer alguém de verdade é uma vantagem absurda na hora de dar prazer, porque você sabe onde ela guarda a insegurança, onde ela relaxa de verdade, o que faz ela rir e o que faz ela parar de pensar em qualquer outra coisa.
A Carol passou a noite, e o término com o Felipe virou a melhor coisa que aconteceu pra gente em quatro anos de amizade.
Ainda não sabemos muito bem o que somos. Por ora, somos o que sempre fomos, com algumas quintas a mais por semana.
Escrito por Paola Q. exclusivamente para Désir