- Blog, Contos Eróticos
- outubro 29, 2026
Conto lésbico
A ideia foi da Bia.
“A gente precisa de uma viagem só nós duas”, ela disse numa quinta de ressaca, deitada no meu sofá com um copo d’água na mão e a cara de quem sofreu na noite anterior. “Sem homem, sem grupo grande, sem agenda. Casa alugada, praia, vinho e silêncio.”
Eu disse que sim na hora, porque com a Bia eu sempre digo sim, e porque ela estava certa como quase sempre estava.
A gente se conhece há seis anos. Nossa amizade começou num contexto simples, tínhamos uma amiga em comum que nos apresentou, e desde então viramos parceiras de vinhos, saídas em plena quarta, programas que ninguém quer ir. Éramos as únicas solteiras do grupo e curtíamos isso do nosso jeito. Ela sabe de mim tudo que importa, eu sei dela tudo que ela permite, e existe uma camada que a gente nunca tocou em sete anos de conversa honesta. Não por falta de coragem. Por excesso de coisa boa pra não estragar.
Eu sabia o que era. Ela sabia o que era. Certamente você já imagina o que era. A gente só não falava.
Búzios em maio é perfeito porque não tem criança, não tem multidão, e a luz da tarde dura bastante. Alugamos uma casa pequena perto da Ferradura, com varanda virada pro mar e uma cozinha boa o suficiente pra gente cozinhar juntas, o que a gente faz muito bem porque, aprendemos a dividir espaço ao longo de anos de jantares na casa uma da outra.
O primeiro dia foi exatamente o que a Bia prometeu. Praia de manhã, almoço leve, soneca sem culpa, vinho no fim da tarde com os pés na areia. A gente ficou horas sem falar de nada que importasse, só existindo, o mar fazendo o barulho que o mar faz, e eu fui percebendo ao longo do dia que estava mais consciente do que de costume. Ela se levantou pra pegar mais vinho e quando voltou pediu pra eu passar protetor nos ombros e até suas costas. E então ela riu de algo com a cabeça jogada pra trás e o cabelo molhado de sal voando.
Normal. Sempre foi assim. Só que naquela tarde eu parei de fingir pra mim mesma que era só normal.
Na noite do segundo dia a gente cozinhou juntas, macarrão, uma garrafa de tinto boa que ela tinha trazido de casa, e ficamos na varanda depois do jantar ouvindo o mar lá embaixo. A conversa foi ficando mais funda, do jeito que fica quando não tem mais nada competindo pela atenção, e em algum ponto ela disse, olhando pro mar:
“A gente se dá super bem, ne? Você já pensou no que seria se a gente fosse além da amizade?”
Não virei pra ela imediatamente. Fiquei olhando pro mesmo ponto que ela estava olhando, o coração batendo num ritmo que não era de repouso.
“Pensei”, eu disse.
Ela virou. Eu virei.
“Há quanto tempo?”, ela perguntou.
“Uns cinco anos”, eu respondi. “Você?”
“Seis.” Uma pausa. “Fui eu que inventei essa viagem por um motivo, né.”
Ri. Ela riu. E o alívio de finalmente nomear aquilo depois de tanto tempo foi tão grande que a gente ficou rindo por um tempo sem conseguir parar, aquele riso de quem soltou um peso que nem sabia que estava carregando. Ufa!
Quando o riso passou, o que ficou no ar era outra coisa.
Ela chegou mais perto na cadeira, a mão encontrou a minha no braço do móvel, e a gente ficou assim por alguns segundos antes de qualquer coisa acontecer. Ficamos ali olhando para o nada, apenas sentindo a sensação gostosa de um carinho na mão. Depois ela se levantou, me estendeu a mão, e eu fui.
No quarto, com a janela aberta e o barulho do mar entrando, ela me olhou por um momento antes de chegar perto. O beijo foi diferente de qualquer coisa que eu tinha imaginado porque era ela, com o cheiro que eu conhecia e a boca que eu não conhecia, e a combinação disso me desarmou completamente.
A Bia é muito presente quando quer, o corpo inteiro atento, e aquilo foi imediato. Ficou com as mãos no meu rosto, me beijando devagar. Quando se afastou pra me olhar, tinha aquele sorriso, o dela, o de sempre, só que com uma camada nova que fez meu estômago virar. A sensação é de que estava prestes a andar de montanha russa. E, acho que era bem isso mesmo.
Tirou minha blusa com calma, passou as mãos pelos meus ombros, pela minha cintura, com a atenção de quem está descobrindo algo que ficou esperando tempo demais. Me deitou na cama, ficou sobre mim, e desceu pelo meu pescoço com a boca enquanto as mãos exploravam meu corpo com aquela familiaridade estranha de conhecer alguém há sete anos e ao mesmo tempo estar encontrando pela primeira vez.
Chupou meus peitos com vontade, a língua no mamilo e os dentes de leve, e eu puxei o cabelo dela sem querer, o que a fez pausar e me olhar com uma expressão que era metade surpresa e metade muito satisfeita. Desceu pela minha barriga, mordiscou o osso do quadril com força suficiente pra eu fechar os olhos, e chegou na parte interna da minha coxa com beijos molhados.
Quando a boca dela chegou na minha buceta foi com uma língua macia que começou devagar, lambendo os grandes lábios, chegando no clitóris com uma leveza calculada. Ela conhecia o corpo feminino com a naturalidade de quem conhece o próprio, sabia onde aplicar pressão, onde variar, onde manter quando a respiração mudava. Meteu dois dedos enquanto chupava, curvou levemente pra cima, encontrando um ponto que me fez arquear a coluna, e ficou ali enquanto a língua não parava no clitóris.
Eu me contorcia, o quadril escapando do controle, e a Bia segurou minhas coxas com as duas mãos como se soubesse que eu ia precisar de âncora. A língua dela no clitóris não parava, os dedos dentro de mim encontravam um ponto que me deixava sem fôlego, e teve um momento em que tudo convergiu de uma vez, uma onda que começou lá dentro e tomou o corpo inteiro. Gozei em silêncio.
Fiquei um tempo voltando. A Bia ficou deitada do meu lado, a cabeça no travesseiro ao lado do meu, me olhando.
“A gente perdeu seis anos” eu disse.
Ela deu aquela risada dela. “Temos muito tempo.”
Depois foi a vez dela. E descobri que sete anos de atenção acumulada é um mapa melhor do que qualquer outra coisa, porque eu sabia onde ela guardava tensão, onde ela relaxava de verdade, o que fazia o corpo dela soltar tudo de uma vez.
A Bia pegou na mesinha o Pulpi, o sugador roxo em formato de polvo. Ela entregou com uma naturalidade… “Trouxe por precaução”, disse, completamente sem vergonha.
Encostei o bocal no clitóris dela e liguei na primeira intensidade enquanto meus dedos entravam devagar. O barulho do mar lá fora, a luz baixa do quarto, ela se contorcendo sob as minhas mãos enquanto eu ia aumentando a intensidade do Pulpi foi uma imagem que vou guardar por muito tempo. Quando ela gozou foi com os olhos abertos me olhando, e o que passou no rosto dela naquele momento é coisa que eu não consigo descrever, só guardar.
Ficamos acordadas até muito tarde, enroladas, com o mar como trilha sonora. Na manhã seguinte, café na varanda, ela me olhou e disse “a gente vai ter que remarcar todas as próximas viagens.”
“Todas”, eu concordei.
Voltamos pro Rio no domingo. Na segunda, ela me mandou mensagem perguntando se eu estava livre na sexta.
Estava.
E assim começou a nossa montanha russa.
Escrito por Paola Q. exclusivamente para Désir