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Conto lésbico

Você foi embora faz oito meses e eu ainda não escrevi isso. Não porque esqueci, mas porque algumas coisas a gente guarda como se colocar em palavras fosse diminuir. Mas hoje decidi que você merece saber.

Estou falando da nossa última noite.

Você tinha a passagem comprada faz três semanas. A gente sabia, mas não falava, aquele tipo de coisa que existe no ar entre duas pessoas e que nenhuma quer tornar real nomeando. Na véspera da sua viagem eu apareci na sua casa com uma garrafa de vinho e a desculpa mais fraca do mundo, disse que era pra se despedir direito, e você abriu a porta como se estivesse me esperando, o que provavelmente estava.

A gente bebeu o vinho inteiro sem falar sobre o avião.

Você estava com aquela camiseta velha que eu sempre reclamei e que sempre achei a coisa mais bonita do mundo em você. Quando você foi pegar mais água na cozinha eu fiquei te olhando da sala e pensei que ia guardar aquela imagem por muito tempo. Guardei.

Não sei em que momento a gente parou de fingir que era só despedida. Acho que foi quando você voltou da cozinha, ficou parada na minha frente, e me olhou com aquele olhar que não pede licença. Eu levantei. Você chegou mais perto. E o beijo que veio não tinha nada de tchau, tinha tudo de uma vez mais.

Você me deitou no seu quarto pela última vez sabendo que era a última vez, e isso deu ao que veio depois uma qualidade que eu não consigo nomear completamente. Mais devagar. Mais atento. Você cheirou meu cabelo demorado antes de descer pro meu pescoço, e eu entendi que você também estava guardando.

Sua boca nos meus peitos foi lenta, quase vagarosa, como quem não tem pressa porque já sabe que o tempo vai acabar de qualquer forma. Você chupou o mamilo esquerdo com uma pressão que me fez fechar os olhos, passou a língua pela costela, pela barriga, ficou um tempo na parte interna da minha coxa com beijos que tinham peso suficiente pra deixar marca. Minha pele estava tão acordada que eu sentia cada milímetro da sua boca antes mesmo de ela tocar.

Quando você chegou na minha buceta e começou a me chupar devagar, com aquelas lambidas compridas que começavam nos grandes lábios e terminavam no clitóris, eu segurei no seu cabelo e não disse nada porque não tinha palavra que servisse. Você meteu os dedos com cuidado, foi fundo, saiu devagar, voltou, e o ritmo que você escolheu era o ritmo de quem quer que dure, não de quem quer que termine. Eu me contorcia, pedia mais com o quadril, e você dava no seu tempo, que era o jeito que você fazia tudo e que eu amava e odiava na mesma medida.

Quando eu gozei foi com os olhos abertos te olhando, porque eu queria que você visse. Você viu. E o que passou no seu rosto naquele momento é uma coisa que fico feliz de ter guardado.

Você pegou o Delight na mesinha, o lilás que a gente tinha comprado semanas antes e que a gente tinha usado só uma vez. Encaixou devagar, com aquela atenção toda que você tinha com o meu corpo, posicionou o bocal no clitóris, e ficou com o controle na mão, me olhando.

“Mais uma vez”, você disse.

Não era pergunta.

Ligou na primeira intensidade e foi aumentando devagar, uma de cada vez, sem tirar os olhos de mim. A vibração interna e a sucção juntas são uma coisa que altera o estado da pessoa, e você sabia disso, ficou me observando com atenção de quem quer guardar cada detalhe também. Na quinta intensidade eu já não tinha compostura nenhuma. Você chegou perto, colocou a boca no meu ouvido, a mão livre apertando a minha, e ficou assim enquanto o orgasmo vinha, longo, vindo de dentro pra fora, tomando tudo.

Fiquei um tempo com os olhos fechados depois, ainda sentindo o pulso nos dedos, e quando abri você estava me olhando com uma ternura que me partiu o coração de um jeito suave.

A gente ficou acordada até tarde, enrolada, sem falar muito. Você dormiu em algum ponto e eu fiquei te olhando no escuro pensando que oito horas é pouco tempo pra quem não quer que o dia amanhã. Passei a mão no seu braço bem de leve, com cuidado pra não te acordar, só pra sentir que você ainda estava lá.

De manhã você me acordou com café, já arrumada, a mala na porta. Tomamos café em silêncio. Me beijou longo na porta. E foi.

Não falo isso pra te trazer de volta. Só queria que você soubesse que aquela noite existe inteira dentro de mim, sem nenhum detalhe perdido. Que o Delight lilás ainda está na minha mesinha. E que toda vez que chove à tarde aqui eu penso em você com uma saudade que ainda não encontrou o nome certo.

Boa vida aí fora.

Com amor e sem arrependimento nenhum.

Escrito por Paola Q. exclusivamente para Désir

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