- Blog, Contos Eróticos
- setembro 17, 2026
Conto hétero
Eu tinha trinta anos, uma semana de férias e zero companhia. Não por falta de opção, mas porque decidi que estava na hora de descobrir se eu conseguia viajar sozinha sem entrar em colapso existencial no terceiro dia. Spoiler: não só consegui como foi a melhor decisão da minha vida adulta até agora.
Amsterdam em outubro tem aquela luz de fim de tarde que dura uma eternidade, o canal refletindo laranja, as bicicletas passando sem parar, e uma energia que é ao mesmo tempo agitada e tranquila, o que eu não sabia que era possível até chegar lá. Passei os primeiros dois dias no modo turista raiz, museu, canal tour, queijo, a obra toda. No terceiro, resolvi entrar num coffee shop que tinha visto na esquina perto do hotel só pra dizer que fui.
Foi ali que o Marcos apareceu.
Espanhol, de Sevilha, trabalhando em Amsterdam há dois anos. Uns 34 anos, cabelo escuro, aquele sotaque que faz qualquer frase soar melhor do que é. Estava sentado numa mesa sozinho com um livro, e quando eu entrei e fiquei obviamente perdida sem saber o que pedir, ele levantou a cabeça e disse, em português, “posso ajudar?” com um sorriso que eu senti no estômago.
Sentei com ele. Ficamos umas três horas naquela mesa. Ele falava português por causa de uma ex namorada brasileira, o que achei simultaneamente conveniente e suspeito, e ele riu quando eu falei isso. Conversamos sobre viagem, sobre morar fora, sobre como Amsterdam muda a pessoa de um jeito que ele ainda não sabia descrever direito. Lá fora começou a escurecer e nenhum dos dois fez menção de ir embora.
Em algum ponto ele parou no meio de uma frase, me olhou de um jeito que mudou a temperatura da conversa, e disse “você quer jantar comigo?”
Não era uma pergunta inocente. E nenhum dos dois estava fingindo que era.
Jantamos num restaurante pequeno perto do canal, vinho, massa, mais duas horas de papo que foram ficando cada vez mais próximas, fisicamente inclusive, ele inclinado pra mim na mesa, eu já sem nenhuma pretensão de manter certa distância. Quando saímos e o frio de outubro bateu, ele colocou o casaco nos meus ombros num gesto tão natural que eu quase ri de como era clichê e tão bom ao mesmo tempo.
“Meu hotel é aqui perto”, eu disse.
“Eu sei”, ele respondeu. “Você me contou antes.”
Fomos.
No elevador do hotel a gente se beijou pela primeira vez, e beijo de espanhol tem ritmo diferente, mais lento, mais deliberado. Quando a porta do quarto abriu eu já estava com a cabeça em qualquer lugar menos em Amsterdam.
Ele tirou o casaco dos meus ombros, devolveu o meu e tirou o dele, e me olhou por um segundo no meio do quarto com aquela calma que eu já tinha percebido nele. Me puxou pelo quadril, me beijou de novo, dessa vez com as mãos no meu rosto, e eu simplesmente desliguei qualquer coisa que ainda estava funcionando na minha cabeça.
A gente foi pro lado da cama sem pressa. Ele tirou minha blusa, passou a boca pelo meu pescoço, desceu pelo colo com beijos que alternavam pressão e leveza, e eu enrolei os dedos no cabelo dele e parei de pensar em português, em espanhol ou em qualquer língua.
Chupou meus peitos com vontade, uma mão na minha cintura, a outra no meu cabelo, e eu já estava com a buceta latejando antes de ele ter chegado lá. Quando desceu pela minha barriga e tirou minha calça, ficou me olhando de baixo pra cima por um segundo, aquele olhar que pergunta e afirma ao mesmo tempo.
A língua dele na minha buceta era lenta e precisa, o tipo de coisa que parece que a pessoa estudou você antes mesmo de começar. Ele alternava lambidas longas com sugadinhas no clitóris, metia um dedo devagar enquanto chupava, e eu tinha a mão no cabelo dele e o quadril se movendo sozinho, pedindo sem palavras. Quando eu já estava quase, gemi o nome dele, e ele aumentou o ritmo até eu gozar com a mão espremendo o lençol.
Fiquei um tempo voltando. Ele subiu, ficou deitado do meu lado, me olhando com aquele sorriso tranquilo de quem não tem ego nisso, só prazer genuíno.
“Minha bolsa”, eu disse.
Ele não entendeu.
Peguei a bolsa da cabeceira, tirei o Bullet Pulse, e a expressão dele mudou de um jeito que foi satisfatório de ver. “Viajo com ele”, eu disse, naturalmente, porque é a verdade e porque não me envergonho de nada a essa altura.
Ele pegou das minhas mãos, ligou na segunda intensidade, encostou no meu clitóris enquanto me penetrava devagar, e o que se seguiu foi uma combinação que fez meu corpo inteiro perder o fio. O Pulse no clitóris, ele me comendo num ritmo que ia e vinha, as mãos dele no meu quadril me puxando mais perto, foi a melhor noite que eu tive em muito tempo. Talvez a melhor.
Gozei de novo, dessa vez com ele, e ficamos deitados depois sem falar nada por um tempão, o barulho do canal lá fora, a luz de Amsterdam entrando pela janela que eu tinha esquecido de fechar.
Ele foi embora de madrugada, me deu um beijo longo na porta e disse “se vier a Sevilha, me avisa.”
Disse que ia avisar. Não sei se é verdade. Mas guardo a possibilidade como quem guarda um souvenir.
Na manhã seguinte tomei café sozinha olhando pro canal, e pensei que viajar sozinha é a melhor coisa que já fiz. Não pelo Marcos, embora o Marcos tenha sido excelente. Mas porque fui, resolvi, sentei, conversei, decidi e vivi sem precisar de aprovação de ninguém.
Trinta anos, uma semana em Amsterdam, e voltei outra.
Escrito por Paola Q. exclusivamente para Désir
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