- Blog, Contos Eróticos
- outubro 8, 2026
Conto lésbico
O Uber cancelou duas vezes.
Eram 21h, tava caindo aquela chuva de Rio de Janeiro que não avisa ninguém, e eu e a Fernanda estávamos paradas na entrada da academia olhando pro celular com a cara de quem não tem plano B.
A gente se via toda terça e quinta faz seis meses. Papo de vestiário, aquele tipo de amizade que existe só dentro de um contexto e que nunca testou os próprios limites. Eu sabia que ela era designer, que tinha um gato chamado Freud, e que cheirava bem demais pra quem acabou de treinar. Isso era tudo.
“Moro aqui do lado”, ela disse, olhando pra chuva. “Literalmente. Dois quarteirões.”
“Tô dentro”, eu respondi antes de ela terminar a frase.
Saímos correndo e chegamos encharcadas de qualquer forma, o que a fez rir jogando a cabeça pra trás, sem cerimônia. O apartamento era pequeno e muito ela, cheio de planta, uma estante enorme de livro, o Freud me olhando da cama com desconfiança profissional.
Ela me emprestou uma camiseta e um short, fez chá, e a gente sentou no chão da sala encostada no sofá porque “o sofá afunda no meio e é uma armadilha”, explicou ela, muito séria. Fiquei na armadilha mental de olhar pra boca dela enquanto ela falava e tentar não deixar isso aparecer no rosto. Não tenho certeza se consegui.
A chuva não deu trégua. Passamos de chá pra vinho, de vinho pra uma conversa que foi ficando mais honesta à medida que a garrafa esvaziava. Ela contou de uma ex, eu contei de um ex, e em algum ponto ela disse “você já ficou com mulher?” com a naturalidade de quem pergunta se você já foi a algum restaurante.
“Uma vez”, eu disse. “E você?”
“Algumas”, ela disse, me olhando.
O Freud saiu do quarto nesse momento, nos olhou as duas, e foi embora. Gato sabe quando não é bem-vindo.
Não tem como explicar direito como a conversa virou beijo. Foi uma transição que acontece quando duas pessoas decidem parar de fingir que não estão pensando a mesma coisa. A boca dela era macia e ela beijava sorrindo, o que deveria ser estranho e não era nenhum pouco.
Ela me puxou pra cama por cima do Freud protestando, a gente riu, o gato foi embora com dignidade ferida, e o clima voltou rápido.
Deitei de costas, ela ficou sobre mim, tirou minha camiseta, a dela, e eu fiquei olhando pra ela por um segundo achando que tinha passado seis meses sem ver direito o que estava bem na minha frente. Ela desceu pelos meus peitos com a boca, chupou o mamilo com pressão certa, passou a língua pela minha barriga, mordiscou o osso do quadril devagar, e eu me peguei com as mãos no cabelo dela sem perceber quando tinha colocado.
Quando a boca dela chegou na minha buceta foi sem rodeio, língua larga abrindo primeiro, depois pontual no clitóris, num ritmo que ela foi ajustando conforme eu respondia. Ela lia cada reação, mantinha onde eu ficava quieta demais, variava quando eu tentava forçar mais contato. Meteu os dedos devagar enquanto chupava, aumentou o ritmo quando minha respiração mudou, e quando eu já estava no limite ela não parou, ficou exatamente onde estava, a língua no clitóris e os dedos dentro de mim até eu gozar com o nome dela na boca.
Ela ficou ali até eu pedir pra parar. Subiu, ficou deitada do meu lado, o Freud voltou e se instalou no meu pé da cama como se nada tivesse acontecido.
Fiquei um tempo voltando, o corpo pesado do jeito bom, enquanto ela me olhava com um sorriso que eu nunca tinha visto nela antes e que era muito melhor que todos os outros.
“Ele aprova”, ela disse, olhando pro Freud.
“Que bom”, eu respondi. “Porque a chuva não parou e eu não tenho a menor intenção de ir embora.”
Ela foi buscar mais vinho. Voltou, se deitou do meu lado, e a gente ficou assim por um tempo, a chuva batendo na janela, o Freud ronronando, a garrafa entre nós.
Depois foi a vez dela. E descobri que seis meses observando uma pessoa, mesmo sem querer, te dá um mapa que a maioria das pessoas leva muito mais tempo pra ter.
A terça seguinte na academia foi a mais interessante dos últimos seis meses. A quinta também. E todas as outras desde então. O Freud já não nos olha mais com desconfiança. Acho que a gente cresceu aos olhos dele.
Escrito por Paola Q. exclusivamente para Désir